quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Coisas que se dizem! (11)


"(...) porventura o mais traumático dos aspectos aborrecidos desta campanha é uma inevitabilidade antropológica. O facto dos assuntos, dos acontecimentos, dos números, se prestarem quase sempre a duas interpretações, duas visões, duas posições diferentes dá cabo do telespectador. O telespectador raramente consegue saber, verdadeiramente, por exemplo, se os últimos governos de coligação fizeram ou não subir o defice, se há ou não sinais de recuperação da economia, se se conseguiu ou não reduzir os custos do Serviço Nacional de Saúde.
O caso da isenção de impostos na fusão dos bancos Totta/Santander/Crédito Predial, suscitado por Louçã no debate da RTP, é particularmente emblemático disso. Julgávamos ter ali um escândalo, esfregámos as mãos, um escândalo finalmente, os próprios moderadores rejubilaram, e no fim, ontem, apercebemo-nos que não é bem assim. Nunca é bem assim. Ora aparecia um especialista a dizer que se tratava de um privilégio vergonhoso do grande capital; ora aparecia outro a dizer que não, que era assim há muito tempo e estava tudo bem."


Ricardo Dias Felner no Público em 2005-02-17