terça-feira, fevereiro 15, 2005

Coisas que se dizem! (8)


"Na ausência de polémicas sérias relacionadas com a campanha (ou seja, com o futuro de Portugal, pois é ele que está em jogo, no próximo dia 20 e depois dele), surgiu agora uma outra, derivada de uma perda para a comunidade religiosa. (...) em casos análogos, na morte de personalidades de indiscutível relevo na vida nacional, como a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen ou a ex-ministra Lourdes Pintasilgo, o Estado não se dignou a desnivelar uma só bandeira. Também não o fez por Fernando Vale, que devia ter merecido maior homenagem dos seus concidadãos. Fê-lo, sim, por Amália, diva unânime e de assegurada projecção mediática, não se sabe se por lamentar assim tão profundamente a sua morte ou se para não se apagar do espectáculo que ela inevitavelmente gerou. (...) importa lembrar que, quando Amália morreu, havia uma campanha eleitoral em curso, para as legislativas de 1999. Não foi interrompida, apenas suavizada. Houve votos de pesar, e muitos, mas ninguém calou as suas mensagens políticas. Faltavam dois dias para a campanha acabar. Agora faltam quatro e pelo menos dois foram apagados voluntariamente por dois partidos que quiseram assim exibir o seu pesar em público. Má ideia: não se livraram de (mais que justas) acusações de oportunismo por parte de sectores católicos. E não só os tradicionalmente ligados à esquerda. Vejam-se, por exemplo, as declarações de D. Januário Torgal Ferreira ou D. Manuel Martins, ambos críticos desta confusão inusitada entre obrigações cívicas e manifestações religiosas. Basta, aliás, atentar nisto: na ordem dos Padres Carmelitas Descalços, onde vivia Lúcia, a sua morte já era esperada há uns dias. Santana Lopes, no entanto, quando reagiu à notícia, disse: "A morte da Irmã Lúcia é uma notícia impressionante que constitui um momento impressionante para Portugal e para o mundo." Serão precisas mais palavras?"

Nuno Pacheco no Público em 2005-02-15