segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Epopeia escrita no basalto...


"(...) a Madalena, na sua humildade primitiva (...) medrou e cresceu no contexto picoense porque se creditou como chave natural das comunicações, uma das alavancas básicas para o progresso.
Mas, regressando à principal determinante da sua existência e desenvolvimento, façamos uma reflexão para imaginar que quantidade de mão de obra, engenho, esforço, sacrificio, tenacidade, resistência, numa palavra, capacidade anímica, foram necessários para se arrancar da terra pedrosa o seu sustento, escavar na rocha os poços de maré da sua sobrevivência, rasgar uma rede de caminhos pelas pedreiras onde se afundaram os sulcos dos rodados dos carros de bois, esculpir nas penedias um rosário de portinhos e roladouros para movimentar a cascadura com o vinho precioso, edificar muralhões para suster as investidas do mar alteroso e, sobretudo, à mesma a braço hercúleo, recobrir milhentos hectares de biscoito e magma consolidado com uma teia única no Mundo, interminável quadrícula de pedregulhos arrancados ao solo, arrumados com surpreendente mestria em paredes divisórias, 'canadas' - com os seus 'traveses' a limitar 'currais' - que, alinhadas uma a seguir às outras, (contas feitas em trabalho de campo), dariam em pleno Equador uma volta e meia ao Globo Terrestre!
É, simplesmente, espantoso!...
Porém para encerrar esta resenha, obra mestra da gesta picarota, que nunca nos cansaremos de exaltar, forçosamente teremos de evocar os verdadeiros monumentos que são os nossos 'Marouços'.
(...) Os 'Marouços' ou 'Maroiços' foram uma ingente tarefa, de geração atrás de geração, a que todo o agregado familiar se entregava afanosamente, os mais fortes e sadios extraindo e partindo os rochedos, enquanto os restantes, velhos, mulheres e crianças, cada qual de acordo com a sua valia, às costas ou à cabeça, iam chegando os materiais para junto dos encarregados de urdir a estrutura em socalcos cada vez mais estreitos ao aproximarem-se do topo.
Era uma 'desprega' total, mas a fina camada de pó escuro que restava destinava-se não para plantar vinha, mas para fazer crescer o milho, as batatas, os feijões, as favas, as abóboras, etc. para a sua subsistência.
Constituía uma corrida contra a fome!
Este capítulo (...) simboliza para nós uma das páginas mais significativas da nossa Epopeia, escrita no basalto, com basalto."

Dr. Tomaz Duarte Jr. in "O Concelho da Madalena - Subsídios"