Os jovens de hoje!
Regularmente saem nos jornais crónicas, artigos de opinião, cartas, reflexões, editoriais e até (pasme-se) posts em blogues de referência a reclamar contra a «falta de qualidade» da juventude dos nossos dias, seja como maus estudantes, como incultos, como drogados, como mimados, como feios, sujos, porcos e maus…
Quem as escreve, normalmente, já ultrapassou à muito os 40 anos o que pode, à primeira vista, dar a entender que se trata de uma vingança. O pai bate no filho e o filho, quando crescer, bate no filho dele. E assim se mantém uma bela tradição. É escusado fazer uma lista dos gritos de alerta dos quarentões em 1960 quando, um pouco por todo mundo, surgiam o rock&roll, a cultura beatnick, os hippies e até as manifestações pelos direitos cívicos.
O mundo está em mudança permanente e a maior parte de nós não a acompanha. Parece quase impossível diga-se, tal é a velocidade a que ela molda o novo mundo.Mas pelo menos o bom senso podia imperar e calar os juízos perfeitamente cretinos e reaccionários.
Quantos de vocês já leram que os estudantes hoje chegam à Universidade a saber menos, que «no tempo deles» os alunos eram todos muito bons, que valorizavam o trabalho e tinham disciplina? É um perfeito disparate. O ensino democratizou-se. Se antes era privilégio de elites, hoje é acessível a toda gente. Não é de estranhar que a alta esfera de agora andou toda nas mesmas escolas secundárias, que foram todos amigos de infância, que todos eles, quase invariavelmente, vêm de famílias da alta burguesia.
Como se pode dizer que os jovens de hoje sabem menos português quando a taxa de analfabetismo, elevadíssima em Portugal, tem vindo a descer? No tempo de juventude dos que escrevem esta frase, o analfabetismo era praticamente geral e só uns 5 ou 10% da população sabia escrever.
Já vi escrito, num artigo de opinião no Público por não sei quem (uma professora) que «estão a substituir Eça de Queirós pelo Harry Potter». Oh Meu Deus... não há limites. Eu lia coisas piores do que Harry Potter. Li um livro chamado "O Escaravelho da Morte", os livros de lombada verde da série das aventuras em que se jogava com dados e lápis, os contos todos de Enid Blyton, a BD toda a que pudesse deitar as mãos, especialmente Tio Patinhas... E agora que leio livros do Steinbeck, Dan Brown ou/e José Gil, isso confere-me alguma autoridade especial para emitir juízos desse tipo?
Queixam-se que «qualquer pessoa tira um curso». Fazem-no porque sentem uma ameaça ao seu próprio estatuto. Cresceram numa época meio saloia em que ser “Doutor” era o que os distinguia do resto da criadagem. Hoje, o filho da criada, pode, mesmo com más notas, completar um curso numa Universidade qualquer, pública ou privada, e a criada pode dizer-lhes com orgulho “o meu filho também é doutor”.
A ilusão é a de que basta ter um título para se ser promovido socialmente e quer a criada, quer a professora universitária que escreve o artigo de opinião, padecem dessa ilusão.
A filtragem, a verdadeira selecção, é feita no mercado de trabalho e hoje, essa filtragem, é muito mais fina do que era. O desemprego de mão de obra qualificada é algo relativamente novo em Portugal. Há 30 anos se fossem doutores, tinham garantido o sucesso material.
É verdade que se pode tirar uma licenciatura, um mestrado e até um doutoramento numa qualquer universidade pouco credível mas a entidade patronal vai ter isso em conta. E se há excesso de oferta então os critérios serão mais restritos. Nunca vi ninguém que tenha tirado um curso aldrabado numa qualquer universidade aldrabada, sem ter de ter estudado nada de especial, a ter sucesso no mercado de trabalho. A própria escolha do curso superior deve ter isso em consideração e muitos jovens esquecem isso quando seguem apenas a vocação por forma a fugir a outras coisas “chatas”.
Por outro lado, o direito a estudar, a expandir os horizontes, a viver a juventude mais uns anos, é algo de fundamental nas sociedades modernas. Dizem que temos demasiada gente nas universidades mas é mentira, somos o país da Europa com menos licenciados.
O que as elites iluminadas querem é que logo aos 17 anos haja jovens que escolham ser pedreiro, electricista ou mecânico como vocação. Chegam mesmo a dizer que essas profissões são tão válidas como as outras, se bem que eles próprios nunca sujariam as mãos de óleo queimado ou argamassa.
Poderia listar, depois de uma pesquisa, todos os prémios que estudantes universitários portugueses têm conseguido ganhar em todo mundo, muitos inéditos. E no entanto há artigos de opinião que dizem que os jovens de hoje “já não são feitos do mesmo material que os de antigamente” e que lançam alertas de “onde é que isto vai parar?”, pelo meio de queixas de depressões profundas e desgosto pela profissão.
O que se passa é que esses professores também eles estão a ser filtrados. Há professores a mais. Os melhores, com a melhor formação e currículo, estarão em universidades e cursos que atraem bons estudantes. Os piores podem estar no desemprego ou num curso fácil que apele àqueles que só não querem é começar a trabalhar já e ainda querem ser estudantes.
Um dos astrofísicos mais conceituados do mundo, diz que os estudantes têm demasiadas disciplinas. Que deviam ter mais tempo para ser jovens e menos horas de aulas. Que há todo o tempo para formar uma personalidade depois.
Por isso, tenham calma “oh velhadas”. Os jovens de agora endireitam-se quando crescerem. São só adolescentes, como vocês eram. Lembram-se?


2 Comments:
Gostei...gostei muito.
Qual é a tua meu.
Tenho 40 anos e não tenho esse pensamento que tu tens.
Eu ainda me lembro do meu tempo de jovem ou não te lembras do teu,e das dificuldades que naquela altura era ser jovem,ou não te lembras?
Os jovens de hoje tem uma evolução e uma aprendizagem evolutiva muito rápida,o que para nós isso não acontecia.
Não me considero nenhum frustado pela juventude que tive,porque se tivesse tido as oportunidades que eles tem agora tinha a mesma evolução deles.
Admiro a juventude convivo com ela,no dia a dia,só que muitos vezes chamo à atenção e malta que convive comigo,pode confirmar,que falta um pouco sentido responsabilidade na vida.Alguns aceitam esta minha crítica mas tambem desculpabilizam-se dizendo que a culpa não é só deles mas sim do modo de vida que lhe é proporcionado no dia a dia.
E aí estou completamente de acordo
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