É sexta-feira, e logo pela manhã fazemo-nos ao mar. O destino é a Ilha do Faial, onde vamos apanhar o avião que nos transportará rumo a mais uma “dupla” jornada no continente Português. Os adversários do fim de semana serão, primeiro, a Associação Desportiva de Oeiras e, depois, a Associação de Educação Física de Torres Vedras.
A viagem decorre com normalidade. Há muito que se tornou uma rotina viajar desta forma, primeiro de barco, depois de táxi, e finalmente de avião…
Já em plena plataforma de embarque, no aeroporto da Horta, reparo no nome do AIRBUS que nos irá transportar, “Natália Correia”. Uma Açoriana que foi figura importante da poesia portuguesa contemporânea, tendo-se destacado ainda como ensaísta e romancista, passando pelo teatro e investigação literária. Natália Correia acabaria por ser, também, uma destacada figura na luta contra o fascismo.
Subo as escadas, ocupo o meu lugar no avião, e recordo, em pensamento, essa grande mulher, considerando de inteira justiça a homenagem que a TAP lhe faz, baptizando um avião com o seu nome.
A viagem decorre sem sobressaltos. Folheio uma revista generalista que comprei no aeroporto, e deparo-me com uma interessante reportagem sobre a discussão, na Assembleia da República, da nova Lei do Aborto. O jornalista dá ênfase à intervenção de Zita Seabra. Mais de duas décadas depois do primeiro debate, em Portugal, sobre a interrupção voluntária da gravidez, em 1982, Zita Seabra está de volta às lides parlamentares. Mas desta feita, já não pela bancada comunista onde militou durante muitos anos, mas sim como eleita pelo PSD.
Momentaneamente, desvio os olhos da revista, e volto a recordar Natália Correia. Ela também participou nesse primeiro debate sobre a interrupção voluntária da gravidez, em 1982, como deputada eleita pelo PSD. Fervorosa defensora do “sim”, num debate “acalorado”, a deputada respondeu a um parlamentar do CDS em verso. O poema do “truca-truca” – é assim que ainda hoje é recordado. João Morgado, deputado do CDS, defendia em intervenção que “o sexo é para procriar”. A Deputada Poetisa, Natália Correia, não lhe perdoou, e de forma directa e satírica, respondeu-lhe em verso:
“Já que o coito, diz Morgado
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca
temos na procriação
prova de que houve truca-truca,
sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! – uma vez.”
Ao fim de quase duas horas e meia, finalmente, aterramos em Lisboa. Passam poucos minutos das quatro da tarde, e é hora de descansar um pouco. O primeiro jogo será em Oeiras, às nove da noite.
Depois de um merecido e retemperador descanso, a equipa parte em direcção a Oeiras. O ambiente é bom. Toda a equipa está confiante num bom resultado, apesar de consciente das enormes dificuldades que o Oeiras nos poderá colocar, especialmente por jogar no seu terreno.
Finalmente, às nove da noite, começa o jogo. A equipa do Oeiras, a jogar em casa, começa o jogo como se esperava, a pressionar e a tentar assumir as despesas do jogo. Por seu lado, o Candelária acaba por não entrar tão bem no jogo… mas rapidamente se recompõe!
O Oeiras é a primeira equipa a marcar…
O tempo passa, e o jogo vai decorrendo de uma forma um pouco estranha. Os jogadores da casa, incentivados pelo seu treinador, Jorge Vicente, Açoriano natural de Santa Maria, e ex-seleccionador Nacional, recorrem constantemente à falta para travar os homens do Candelária.
As únicas palavras que ouvem do Banco do Oeiras para dentro do Campo são “Faz falta pah… não o deixes jogar, faz falta! … é assim mesmo, empurra-o…”
É absolutamente inacreditável, ainda mais por vir de alguém como Jorge Vicente…
A dupla de arbitragem acaba por ser conivente com este tipo de jogo, não sancionando os jogadores prevaricadores disciplinarmente e, dessa forma, permitindo que o jogo se torne violento!
O jogo aproxima-se do fim e o resultado é um empate a dois golos… empate que manterá até ao apito final! A haver um vencedor, com justiça, seria certamente o Candelária, mas o empate prevalece.
Porém, o pior estava ainda para acontecer. A poucos segundos (não mais de 20) do final encontro, quando se isolava em direcção à baliza do Oeiras, o Mauro é brutalmente “ceifado” por um adversário, caindo de forma desamparada e violenta… Os árbitros nem falta marcaram, muito menos sancionaram o jogador do Oeiras por jogo violento. Uma vergonha!
Os segundos finais esgotam-se rapidamente… o Mauro continua caído no rinque, não se mexe. Quando chegamos junto dele constatamos que tem dores fortes na zona cervical, e que não se consegue mover.
Entretanto entram no campo os Bombeiros que se encontravam de serviço ao jogo que, rapidamente, prestam os primeiros cuidados ao “nosso Argentino”. Vivem-se momentos de grande preocupação.
O Clemente e a Mónica, são assim que se chamam o Paramédico e a Bombeira Voluntária que assistem o Mauro, com um cuidado e competência inatacáveis, imobilizam o jogador, num processo que, pela suspeita de uma lesão cervical, é naturalmente demorado.
Inacreditavelmente, enquanto é prestada a assistência médica ao Mauro, os Árbitros discutem, ali em pleno rinque, à frente de todos, o que deverão escrever no relatório. Um deles está visivelmente perturbado com a situação que se vive à volta do jogador do Candelária. O outro, mais “eléctrico”, quiçá também movido pelo nervosismo, esforça-se, com argumentos contraditórios e inacreditáveis, em “ensaiar” o colega sobre aquilo que deverá escrever no Relatório do Jogo. Repete constantemente as mesmas palavras sem sentido, mas o colega só passados longos minutos consegue esboçar uma reacção, pedindo às pessoas que entretanto tinham entrado no rinque para o abandonarem, permitindo logo de seguida que voltem a entrar…
Entretanto, passados longos minutos, o Mauro está completamente imobilizado. Puseram-lhe um colete cervical (julgo que é assim que se diz), e depois de colocado na maca, num movimento sincronizado em que também eu participo, é transportado para a ambulância que o transporta ao Hospital de São Francisco Xavier. A viagem é longa e demorada. A ambulância segue em marcha muito lenta, de forma a evitar qualquer movimento brusco que pudesse por em causa a débil integridade física do Mauro, naquele momento.
Depois de observado no Hospital, e de completar uma “bateria” de exames de diagnóstico, chega-se finalmente à conclusão de que efectivamente o jogador do Candelária tem um problema na Coluna Cervical, um problema congénito que nunca antes havia sido detectado, e que, em função da pancada violenta de que foi alvo, terá provocado a incapacidade de movimentos momentânea que sofreu o Mauro. O veredicto final do Ortopedista é tranquilizador. O problema que o Mauro tem na coluna não é grave, nem impeditivo da prática desportiva, pelo que, para além de muito dorido, o atleta está bem e pode regressar ao Hotel para junto da equipa, que o aguarda com ansiedade.
Não posso deixar de realçar o desempenho da Mónica e do Clemente, os bombeiros, que, mesmo estando de serviço à mais de 24 horas, foram incansáveis nos cuidados prestados ao nosso atleta, ainda no Pavilhão, na Ambulância a caminho do Hospital, e depois já no Hospital, de onde saíram só quando se teve a certeza de que tudo estava bem com o Mauro.
Uma palavra também, muito especial, para os profissionais de saúde do Hospital de São Francisco Xavier, que estavam de serviço naquela noite, pela forma como assistiram o Mauro. Foram um exemplo de profissionalismo e cordialidade, numa atitude a todos os níveis louvável, e que deveria constituir referência para muitas outras unidades de saúde deste País.
Uma palavra de apoio e incentivo para a Manuela, a “cara metade” do Mauro, que o acompanhou em todos os momentos, vivendo-os sob uma enorme pressão e ansiedade. E, também, o meu sincero agradecimento aos Pais do Ricardo Silva que nos acompanharam ao Hospital, e depois de regresso ao Hotel, tentando sempre, numa atitude sábia, transmitir calma e serenidade.
No Sábado, depois de uma retemperadora noite de sono, tudo estava mais calmo. Todos estávamos mais tranquilos. O Mauro, apesar de ainda muito combalido mostrava-se determinado a participar no jogo dessa tarde em Torres Vedras, o que nos deixava felizes, pois era essa a melhor indicação que ele estava efectivamente recuperado.
O dia passou-se com normalidade. Rapidamente chegou a hora de partir em direcção a Torres Vedras a fim de disputar o segundo jogo do fim-de-semana.
O adversário era a Física de Torres. Mais um jogo muito difícil.
Mas os homens do Candelária não se deixaram intimidar e, mesmo cansados do jogo da noite anterior, foram capazes de produzir mais um excelente jogo de Hóquei em Patins, levando de vencido o seu adversário por quatro a um.
No final, a satisfação era enorme. Estava ultrapassado um fim-de-semana muito difícil e pleno de emoções, com um resultado muito positivo.
Estão de parabéns os grandes homens que constituem o grupo de trabalho do Candelária Sport Clube, pela forma como encaram mais estes dois jogos, e pelos resultados obtidos.
Agora é tempo de descansar um pouco… Todos vão gozar uns dias de folga, voltando ao trabalho na próxima quinta-feira. No próximo fim-de-semana o CSC não joga, pelo que o regresso à competição só acontecerá no Sábado, dia 14 de Maio, no Pico, frente à equipa do Sesimbra.